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24 de Março 2020 REFLEXÕES # 1: PARA COLABORAR COM A TRAVESSIA DA CORONAVIRUS...

Sirlei A. K. Gaspareto

Marcos Rodrigues

Paulo César Carbonari

 

 

 

 

Estamos no meio de uma pandemia. Em diferentes momentos recentes da história vivemos algo parecido, como podemos destacar: Em 2009 a H1N1 também identificada como gripe suína que levou o Egito a abater todos os porcos, apesar de a doença ser espalhada por pessoas.  A Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave), em 2002 e 2003. Um surto que teve impactos econômicos de US$ 40 bilhões (R$ 167 bilhões). Mas as proporções, a gravidade e as consequências que experimentaremos com esta pandemia 2019/2020 – Covid-2019 / Coronavirus, será sem precedentes. Ela não só põe em crise o sistema sanitário, a crise é de modelo produtivo, é de modo de vida...

 Aproveitemos para entender, pensar, refletir questões como as seguintes: temos que nos preocupar em como manter viva a chama do amor em nossas cooperativas, a força de luz de nossos quadros dirigentes (homens e mulheres que se dedicam ao extremo para dar o melhor de si) atingindo cada associado/a do sistema Cooperativista? Muito nos inquieta: o que fazer agora para nossa reconstrução econômica, social, política, humana?... principalmente vivendo esse duro momento, como podemos nos preparar e ao mesmo tempo, preparar o nosso depois?

Enfim: como nossas cooperativas poderão ajudar a enfrentar a reconstrução social e econômica durante e principalmente depois da pandemia? O que fazer agora para tornar isso possível, junto com as medidas necessárias para que subsistam?

Enfim, o subsidio que segue se tivera alguma serventia, que seja para nos ajudar a entender o que passa, mas, mais do que isso, para nos ajudar a passar por tudo o que está aí... a fazermos a necessária travessia, lembrando como disse Guimarães Rosa em Grande Sertão, Veredas: “o real não está nem no começo e nem no final, ele está é no meio da travessia”. Sigamos esta dura travessia... haverá margem.

 

Aspectos econômicos

 

O forte abalo nos mercados financeiros na última segunda-feira, 09 de março, é consequência direta das disputas no mercado mundial de petróleo e das comodittes. Mas também sob influência dos avanços da epidemia do Coronavírus. A crise instalada já é suficiente para reduzir as taxas de crescimento da economia mundial e poderá ainda se desdobrar em uma crise financeira de grandes proporções.

No Brasil, as oscilações são mais agudas no mercado interno de capitais, tendo em vista as vulnerabilidades políticas e volatilidades econômicas. Além disso, parecem inescapáveis os efeitos depressores sobre as exportações de commodities, notadamente de petróleo e minério de ferro.

O governo vem sofrendo sucessivas derrotas na opinião pública quando o assunto é a crise econômica. Em parte pela ausência de respostas e em parte pela insistência na aposta ultraneoliberal.

O silêncio do Congresso com relação aos absurdos de Bolsonaro aponta para uma mudança de reação das instituições com relação ao método bolsonarista de apostar no caos e no confronto para enfrentar ou disfarçar suas fragilidades. A mudança na reação das instituições pode ter a ver com um aumento da insatisfação de atores próximos ao governo.

A divulgação do IBC-Br (Índice de Atividade Econômica do Banco Central) de 0,87% de crescimento do PIB, em 2019, jogou areia nas expectativas de crescimento para 2020. Frente a um quadro de estagnação econômica, aumenta a pressão do mercado por mais reformas que exigem uma negociação no Legislativo.

O presidente Bolsonaro, em vez de buscar soluções aos reais problemas, optou por apontar culpados e criar uma crise com os demais poderes. Após criar a crise, recuou de sua posição e passou a culpar a imprensa, como de hábito. Na resultante apenas agravou a conjuntura de incertezas.

No paliativo à retração na demanda agregada são adotadas medidas pontuais de incremento de renda, como as liberações do PIS e do FGTS. Com baixo poder de propagação no tempo e impacto sobre a demanda, as medidas representam apenas suspiros em uma economia paralisada, que caminha na inércia.

Ao injetar liquidez no sistema, a medida busca ampliar o crédito e pode ser considerada positiva, pois a elevação do volume de crédito é um dos principais instrumentos para elevação da demanda. Mas com sessenta milhões de inadimplentes e 30% dos consumidores com restrições ao crédito, boa parte sufocada pelos juros exorbitantes no cartão de crédito e no cheque especial, em um ambiente de perda de renda frente à precarização e ao desemprego no mundo trabalho, o potencial de ampliação do poder de compra via crédito é bem restrito.

Por outro lado, a autorização de cortes ainda mais fortes nos direitos trabalhistas, a longa fila do Bolsa Família, a fila do BPC, do auxílio doença e dos pedidos de aposentadoria no INSS e a ampliação dramática dos níveis de desemprego são agravantes ainda maiores e que desenham um quadro de desproteção ainda mais sério.

Medidas como a valorização do salário mínimo, ampliação de programas de transferência de renda, atuação dos bancos públicos para baixar as taxas de juros ao consumidor e a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda de Pessoa Física, promessa não cumprida por Bolsonaro, a revogação da Emenda Constitucional nº 95/2016, do teto de gastos, além da medida recomendada no mundo todo com apoio emergencial mais forte, a implementação da Renda Básica de Cidadania, são exemplos de ações efetivas para ampliar a proteção social e com isso também mobilizar a demanda agregada, principal entrave a retomada da atividade econômica.

 

Aspectos políticos

 

O mês de março está marcado pelos embates entre Governo e Congresso ainda em torno do imbróglio do orçamento impositivo. Mesmo após o acordo com o Legislativo Bolsonaro subiu o tom nos últimos dias: convocou publicamente seus apoiadores para as manifestações do dia 15, cujo mote foi atacar o Congresso Nacional e o Poder Judiciário, e declarou que teria vencido a eleição presidencial de 2018 no primeiro turno, e que teria provas de fraude. A última declaração, além de antidemocrática, ataca diretamente o TSE e coloca sob suspeita a eleição de deputados e senadores, que se dá no primeiro turno.

O ministro ultraneoliberal Guedes afirmou que anunciaria a reforma administrativa e reforma tributária, após o retorno de Bolsonaro ao Brasil quando da visita ao EUA (apresentou!). Mas, surgiu um fato previsto, porém subestimado, ignorado, vulgarizado – o Coronavirus.

De outro lado, parte da imprensa afirma que ainda não há acordo interno no governo sobre o assunto. As bancadas do agronegócio, da bala e da bíblia já demonstram rachaduras nas suas proposições políticas e alianças de apoio ao discurso e prática do presidente da República. De qualquer forma, a MP 922 (em discussão na CCJ) já prevê contratações temporárias em diversos setores do serviço público sem apoio de uma parcela significativa do Congresso Nacional, neste momento.

O fato é que a popularidade do presidente tem caído drasticamente, por sua inépcia e ação completamente atabalhoada, para dizer o mínimo. Em uma semana foram quatro panelaços contra o presidente com ampla repercussão e envolvimento em todo o país. Mas também cresceu neste contexto uma disputa com os governadores e prefeitos que têm tomado medidas (por vezes sim exageradas, mas necessárias muitas vezes) em completa descoordenação. Além da crise sanitária, da crise econômica há uma crise política, tudo junto.

O presidente em resposta chegou a cogitar a instalação de “estado de sítio” (OAB já se manifestou de que seria inconstitucional) para que o governo central recupere sua capacidade de ação – viria bem a calhar sob a perspectiva autoritária, já que esta semana aprovou o “estado de calamindade”, medida que libera do cumprimento das responsabilidades fiscais (art. 65 da Lei de Responsabilidade Fiscal).

 

Para finalizar

 

A aceleração do contágio do Coronavirus no Brasil ampliou o debate sobre o problema para além da perspectiva da saúde pública, incluindo os impactos econômicos, políticos e sociais provocados pela pandemia.

O momento é grave extremamente preocupante, a ponto de uma das medidas profiláticas recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para o combate à doença ser o controle da circulação de pessoas, o que pode evoluir até para situações de quarentena, como observado na Itália, na Espanha, em Santa Catarina e em algumas cidades do Rio Grande do Sul. 

É momento de cuidar da saúde pessoal, da saúde de todos/as, até porque em matéria de saúde, num momento de pandemia, nunca há a “minha saúde”, já que cuidar da minha equivale a cuidar da de todos e vice-versa. Cuidar da saúde das cooperativas de crédito também é fundamental, sobretudo para criar condições para enfrentar a travessia deste “inverno” longo do coronavirus, e prepara-las para serem agentes de solidariedade e de ação na superação da crise que se instala e que se desdobra cada vez com mais gravidade.

O momento é de FICAR EM CASA, mas em solidariedade, cooperando. Já que vivemos num mundo globalizado, o novo Covid-19 - Coronavírus, determinou: PARE! A síntese da exploração da força de trabalho mundial construída há séculos por mãos de trabalhadores/as (aviões, trens, carros de luxo, escolas, hospitais, comércio, indústria, igrejas, cidades ...) está desmoronando em questão de dias. Não é nada penoso lembrar como era difícil para nós trabalhadoras/es cuidar da vida, visitar os parentes, cuidar de nossas cidades, de nossas cooperativas e de nossos cooperados. Poder em algum momento brincar com nossos filhos e filhas, era para muitos um sonho. Pensar livremente em outra forma de viver, quase uma utopia... Muitos/as de nós não acreditávamos que essa forma acelerada do capital, mais cedo ou mais tarde, provocaria mais que pânico, hoje uma nova PANDEMIA – “peste” epidêmica amplamente disseminada.

Vamos aproveitar este tempo para alimentar nossa capacidade de imaginação, nossa criatividade e nossa perspectiva de impossível. A realidade é dura, mas só conseguiremos atravessar e chegar a uma nova margem se formos capazes de nos organizar para resistir. Não sabemos bem ainda como será o futuro, mas já o antevemos tenebroso... e para espantar as “tenebras”, as trevas, as brumas, só com muita calma e com muito cuidado. Destacamos a importância da Mística libertadora popular em nossas vidas. Afirmamos com alegria: a mística da luta cooperativista popular é a mística da vida e vice-versa. É a mística que impulsiona quem caminha, quem trava o combate, quem faz história. É momento oportuno para “perguntar sim, para quê eu vivo. Pergunte em detalhes. Pergunte-me sobre as coisas que têm me impedido de viver para aquilo pelo qual eu quero viver” (SÖLLE, 1997, p. 147). Assim queremos tão somente provocar em nós a insistência na grandeza de nossa própria existência humana, a qualidade de nossos ideais e a justeza de nossos esforços. Afinal, o valor maior que nos congrega é a própria vida, que na verdade é mais que um valor, pois é condição de todo valor, por isso valor maior, e, vida em plenitude tecida nos laços da solidariedade!

Nosso principal desafio está em organizar a solidariedade e a esperança na VIDA frente às muitas e graves situações daqueles/as que estão mais vulnerabilizados/as, principalmente dos que mais sofrem neste agora e, obviamente no depois que tanto almejamos. A vida está sofrida, mas ainda a possibilidade de convivermos e, deste convívio, alimentar nosso sonho em cada amanhecer!

L. Boff nos chama a reflexão propositiva e ativa: “Não basta a hiperinformação e os apelos por toda a mídia. Ela não nos move a mudar de comportamento exigido. Temos que despertar a razão sensível e cordial. Superar a indiferença e sentir, com o coração, a dor dos outros. Ninguém está imune do vírus. Ricos e pobres temos que ser solidários uns para com os outros, cuidarmo-nos pessoalmente e cuidar dos outros e assumir uma responsabilidade coletiva. Não há um porto de salvação. Ou nos sentimos humanos, co-iguais na mesma Casa Comum ou nos afundaremos todos” (Comentários no WhatsApp 22/03/2020).

Não há saída para tudo isso por outro caminho que não seja a COOPERAÇÃO! Afinal, a cooperação não está em quarentena. Vamos fazê-la real neste momento enquanto alimentamos o desejo de vê-la espraiada “contaminando” mentes e corações...

 

Escrito em colaboração e por meio eletrônico, em 22 e 23/03/2020.

Fonte: Assessoria Executiva Cresol Central

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